A Teoria das Necessidades Básicas refere que quando o professor tem um ambiente capaz de facultar e contribuir para a satisfação das suas necessidades psicológicas, ele experimenta um desenvolvimento saudável e emoções favoráveis para o seu trabalho. O inquérito nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal resultou de um pedido da FENPROF à FCSH-UNL. Cerca de 16 mil docentes foram inquiridos e as respostas acabaram trabalhadas por uma equipa coordenada pela professora e investigadora Raquel Varela. Foi possível concluir que mais de 60% dos professores sofrem de esgotamento emocional, evidenciando um burnout causado por uma exaustão ou stress profissional, despersonalização e diminuição da realização pessoal e profissional. Consequência? 42,5% dos professores tem um baixo índice de realização. Nove em cada dez quer reformar-se antecipadamente. A organização da escola portuguesa tem reconhecidamente um défice de discussão interno, caracterizado por uma desvalorização do contributo dos diretamente envolvidos. A sua liderança top-down assenta num modelo de administração que solicita aos que a seguem que executem ordens, menorizando a sua participação e afastando-os das decisões. Para os resultados apresentados pelo estudo contribuiu uma gestão que solicita, unicamente, que se execute o unilateralmente deliberado. Esta desvinculação dos docentes de um processo de que são parte fundamental inviabiliza um maior envolvimento profissional, comprometendo três necessidades fundamentais: autonomia, competência e pertença. Assim, este autismo democrático das escolas, presente nos processos de decisão, visível na falta de envolvimento dos seus principais atores, origina uma espécie de refrão trágico, continuamente repetido. Num resumido enquadramento teórico, é possível afirmar que este eixo basilar para a autorrealização (segundo o estudo comprometido na atualidade) desconsidera o que a Teoria da Autodeterminação sistematizou: quando presentes, estes elementos propiciam um melhor desempenho, uma maior resistência ao stress, menores dificuldades psicológicas e respostas emocionais positivas. A Teoria das Necessidades Básicas refere que quando o professor tem um ambiente capaz de facultar e contribuir para a satisfação das suas necessidades psicológicas, ele experimenta um desenvolvimento saudável e emoções favoráveis para o seu trabalho. O estudo coordenado pela professora Raquel Varela deixa claro o preço no corpo docente da sua inexistência. Da impossibilidade de realização proveniente de valores extrínsecos (“ser bem pago” e segurança profissional) e das necessidades intrínsecas (criatividade, iniciativa e decisão autónoma) advém uma incapacidade de retirar proveito da atividade profissional como seria desejável. A manutenção deste refrão vicioso deixa comprometida a centralidade do desempenho profissional, a qualidade da execução e a possibilidade de atingir estados de autorrealização indispensáveis para o bem-estar e satisfação pessoal. E, como conclusão, como na canção de Sérgio Godinho, inegavelmente: “Isto anda tudo ligado”. Carlos Alves Professor e investigador (IPRI | Observatório Político) Responsável pelo Fórum Intervenção| Fórum permanente de discussão e reflexão política para a promoção da Cidadania Ativa.