Competências e Habilidades no ensino: o que são e como aplicá-las? Por: Luísa França 30 de jan de 2020

Uma preocupação relevante hoje na educação é como ensinar e como avaliar considerando as competências e habilidades. Essa questão está sendo cada vez mais discutida, em um esforço para que o processo de aprendizagem seja menos conteudista e mais focado no desenvolvimento e preparação dos alunos para os desafios do mundo atual. Nesse sentido, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), consiste um exemplo da preocupação em relação ao assunto porque o documento é estruturado a partir das competências e habilidades que devem ser desenvolvidas na educação básica. Contudo, essas definições abrem diversas indagações e dúvidas, mostrando que são temas que devem ser estudados de forma contínua e constante para uma maior compreensão e para a utilização concreta do desenvolvimento de competências e habilidades em todos os segmentos da educação. Para auxiliar nos estudos contínuos dos temas, preparamos este artigo. Você vai ler sobre os conceitos desses termos e por que eles devem ser considerados no contexto escolar. Entenda o que são competências e habilidades na educação: O que são Competências? O Dicionário Aurélio apresenta três definições para Competência:

1. Faculdade concedida por lei a um funcionário, juiz ou tribunal para apreciar e julgar certos pleitos ou questões.

2. Qualidade de quem é capaz de apreciar e resolver certo assunto, fazer determinada coisa; capacidade, habilidade, aptidão, idoneidade.

3. Oposição, conflito, luta. Vamos à segunda, que é pertinente à educação. Note que Competência é uma qualidade de apreciar e resolver um problema, envolvendo a sua capacidade, habilidade, aptidão e idoneidade. Indivíduos competentes, dentro das mais variadas atividades profissionais, tendem a ser bem-sucedidos. Na sociedade atual, as competências são essenciais para que o indivíduo tenha sucesso em sua vida social e na carreira. A forma de conduzir suas relações, responsabilidades e profissão são determinadas por sua capacidade de a cada dia conviver e resolver as situações cotidianas, cujos resultados são totalmente dependentes da forma com que os seus problemas são solucionados. O mercado de trabalho necessita de pessoas capazes de: • tomar decisões; • liderar; • resolver conflitos; • utilizar conhecimentos adquiridos ao longo do processo acadêmico. O professor Vasco Moretto, doutor em didática pela Universidade Laval de Quebec, Canadá, destaca um ponto fundamental em relação à Competência: “Competência não se alcança, desenvolve-se. Competência é fazer bem o que nos propomos a fazer”. De maneira resumida, podemos dizer que as competências no contexto educacional dizem respeito à capacidade do aluno de mobilizar recursos visando a abordar e resolver uma situação complexa. Simplificando bem, é o aluno saber saber ou saber conhecer. Competência versus Desempenho. A confusão feita entre as definições de competência e desempenho acaba gerando problemas no processo de ensino e aprendizagem. O desempenho pode ser definido como um indicador da competência, ou seja, serve para orientar professores e gestores se os alunos estão desenvolvendo as competências. Entretanto, é importante ter em mente que desempenho fraco não é, necessariamente, sinônimo de falta de competência. Nesse caso, o desempenho fraco pode ser motivado por diferentes fatores como, por exemplo, o cansaço físico e mental do aluno no momento da avaliação e a quantidade de horas que dormiu ou deixou de dormir no dia anterior à avaliação. Assim, para avaliar se os alunos estão desenvolvendo de fato as competências, é importante avaliar periodicamente seu desempenho e realizar as intervenções pedagógicas sempre que necessário. O que são Habilidades? Considerando um caso bem simples sobre habilidades: um indivíduo nas séries iniciais vai aprender a ler e a escrever. Quando ele domina esse processo, podemos falar que ele apresenta as habilidades de ler e escrever. O importante é que com essas habilidades ele alcance a compreensão de um texto a partir de sua leitura. Sendo assim, caso ele domine a escrita e a leitura, mas não consiga compreender os textos, ele não será competente para esse domínio. A partir desse exemplo e da explicação do conceito de competência no contexto educacional, podemos definir a habilidade como a aplicação prática de uma determinada competência para resolver uma situação complexa. Simplificando bem, é o aluno saber fazer. Veja abaixo quais são as habilidades básicas necessárias para resolver um situação complexa: • Compreender a situação complexa: Identificar variáveis endógenas e exógenas; relacionar elementos relevantes; comparar com conceções prévias; etc; • Planejar a abordagem e solução: Visualizar possíveis métodos para solução; selecionar estratégias e recursos que serão usados; • Executar o planeamento: Executar o planejado, com o foco no modelo pedagógico da reflexão-na-ação; • Analisar criticamente a solução encontrada: Fazer a crítica da solução encontrada; comparar com experiências anteriores; imaginar alternativas. Como relacionar Competências e Habilidades? Ainda segundo o professor Vasco Moretto, destaca-se que: “As habilidades estão associadas ao saber fazer: ação física ou mental que indica a capacidade adquirida. Assim, identificar variáveis, compreender fenômenos, relacionar informações, analisar situações-problema, sintetizar, julgar, correlacionar e manipular são exemplos de habilidades. Já as competências são um conjunto de habilidades harmonicamente desenvolvidas e que caracterizam por exemplo uma função/profissão específica: ser arquiteto, médico ou professor de química. As habilidades devem ser desenvolvidas na busca das competências.” Uma outra explicação para mostrar a relação prática entre competências e habilidades pode ser feita a partir da leitura de um gráfico. O leitor deve ter capacidade de observar as informações contidas no mesmo, que serão associadas a conhecimentos desenvolvidos ao longo do aprendizado, para que consiga ter uma compreensão que será utilizada para solução de uma situação problema. Note que há conteúdos e habilidades envolvidos, “informação e conhecimento”, para resolver o que foi proposto com competência. Em algumas situações, existe a preocupação de que o ensino-aprendizagem por habilidades e competências possa prejudicar o desenvolvimento dos conteúdos da disciplina. Esse raciocínio não se aplica, já que a proposta é conseguir fazer com que o aluno tenha competência para aprender. Sendo assim, é necessário que, junto com os conteúdos, sejam criadas situações para o desenvolvimento de habilidades. É importante ressaltar que um aluno, ao desenvolver competências e habilidades seguindo orientações de um educador, vai aprender a usá-las de maneira adequada e conveniente. Por exemplo: em uma aula de educação física o aluno vai aprender as regras de um esporte e como fazer para obedecê-las, para depois colocá-las em prática da maneira correta. Esse comportamento de ser competente (saber saber), mas também ter habilidade (saber fazer), deve ser desenvolvido em todas as áreas de conhecimento. “APRENDER é construir significados. ENSINAR é oportunizar esta construção.” Por que trabalhar por competências e habilidades na escola? Nós vivemos hoje na era da tecnologia e da informação. Nunca se produziu e se consumiu tanto conteúdo na história da humanidade, em todos os níveis e áreas da sociedade. Isso se deve à facilidade que temos em acessar essas informações e conteúdos, principalmente depois do surgimento e da expansão da internet. Nesse cenário, a escola teve que (ou deve) mudar seu posicionamento. Antes dessa revolução da informação em nossa sociedade, a escola era tida como responsável pela disseminação de conteúdos. Isso já não faz mais sentido, uma vez que os alunos têm acesso aos conteúdos independente da escola, podendo ainda, visualizá-los e consumi-los na quantidade, velocidade e momento que desejarem. Portanto, a escola deve focar seu trabalho em competências e habilidades para preparar o jovem para lidar com situações de seu cotidiano e ser capaz de resolver problemas reais. Essa postura demonstra ainda alinhamento com as tendências educacionais que enfatizam a importância de colocar o aluno como protagonista, sendo um agente ativo em seu processo de ensino e aprendizagem, por meio, por exemplo, de atividades educativas extraclasse. Além desses pontos, não podemos deixar de mencionar o fato de que as provas do ENEM e do Saeb são orientadas por Matrizes de Referências com competências e habilidades, no primeiro caso, e competências, habilidades e descritores, no segundo. Dessa forma, as escolas que trabalham com a proposta de ensinar os alunos a entender e solucionar os problemas a sua volta, além de formar estudantes mais preparados para lidar com os desafios da vida, estarão também preparando-os para ter um bom desempenho no ENEM. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) determina as aprendizagens essenciais para a formação do aluno por meio de competências e habilidades. Entenda melhor a estrutura da BNCC baixando o infográfico abaixo: Texto escrito por Jorge Cascardo, especialista em Neurociência.