Comunidade escolar preocupada com possível novo adiamento do 2º período:

Entrega de 600 mil computadores, há muito prometida, ainda não foi feita, mas diretores dizem que as escolas estão preparadas para ensino à distância. Voltar a prolongar 3.º período não, defendem.

Só no próximo dia 5 de janeiro, data na qual será feita uma reavaliação da situação epidemiológica do país, se saberá se os alunos regressam mesmo às aulas presenciais a 10 de janeiro ou se a evolução da pandemia, agora acelerada pela variante Ómicron, força a alteração dos planos. Uma dúvida que levanta muitas preocupações por parte da comunidade escolar.

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), teme um novo adiamento do arranque das aulas. “Espero que no dia 5 de janeiro digam que as escolas vão recomeçar no dia 10. Já chega de adiamentos e de mudanças no calendário escolar por culpa da sociedade. Quando a sociedade não tem juízo a escola é que paga e era muito mau se essa fosse a solução”, afirma.

O responsável pela ANDAEP espera que “as escolas não sejam mais uma vez penalizadas por causa dos desvarios que os adultos cometem nas épocas festivas”. Contudo, Filinto Lima sublinha que “as escolas estão preparadas para o ensino remoto de emergência”, caso venha a confirmar-se uma nova alteração de planos. “Estamos mais bem preparados do que no passado. Estamos melhor, quer em meios, quer em conhecimentos. As escolas estão preparadas para essa possibilidade até porque, no 1.º período, quase todas tiveram turmas em confinamento. Houve turmas que chegaram a confinar quatro vezes. A verdade é que temos mais capacitação digital, mas o ensino remoto de emergência é um grande constrangimento e há que o evitar”, explica.

Já no que se refere a uma nova alteração do calendário escolar, Filinto Lima é perentório: “A solução só pode passar pelo ensino remoto de emergência, sem qualquer alteração adicional ao calendário.” “Se optarem por mais uma semana em casa, até dia 14, onde se vão recuperar mais cinco dias úteis de aulas durante o 3.º período? No 2.º período já não há hipótese”, afirma. O presidente da ANDAEP explica que “a pausa do Carnaval está quase esgotada” e “a da Páscoa não se pode diminuir ainda mais”. “Essa pausa é necessária para aguentar o 3.º período. E prolongar o 3.º período é impensável. Era acabar outra vez no verão, como aconteceu no ano passado e levou à exaustão de alunos e professores.”

“Sem espaço para não haver e@d”:

“Se houver um novo adiamento do 2.º período [presencial], diria que já não há nenhum espaço para não haver aulas à distância.” A afirmação é de Rodrigo Queiroz e Melo, diretor executivo da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo (AEEP), que explica a dificuldade em gerir o calendário escolar, “se o pior se confirmar”. “No nosso caso, muitas escolas não terão de ajustar o calendário porque começaram as aulas, em setembro, uma semana mais cedo, mas se tivermos o prolongamento da semana de contenção, já não será possível não alterar o calendário escolar e temos de partir para e@d.” Rodrigo Queiroz e Melo adiantou também ao DN a existência de apoios e aulas de recuperação em muitas escolas na semana de contenção. “Mesmo os alunos que não vão ter aulas terão algum tipo de acompanhamento.” Recorde-se que o governo anunciou a proibição de aulas presenciais no período entre os dias 2 e 9 de janeiro, mas não interditou o ensino à distância.

“As escolas não são o problema”:

Para Jorge Ascenção, dirigente da Confap (Confederação Nacional das Associações de Pais), um possível novo adiamento do regresso às aulas “não faz sentido” porque “estamos a vacinar mais jovens e crianças”. “Espero que não se confirme e veremos qual será a fundamentação. A escola é onde os jovens e crianças estão a cumprir mais regras. O governo tem dito, ao longo dos últimos meses, que não voltará a esse encerramento e esperemos que não seja necessário. Em termos de saúde mental, é o setor mais prejudicado. O encerramento dos estabelecimentos escolares tem impacto na saúde mental, física e social dos alunos, e até na saúde familiar. É quase como fechar um coração, uma parte vital da sociedade. Tem um impacto enorme”, alerta. Jorge Ascenção afirma que “as escolas não são o problema” e que “os surtos não somam número de contágios significativos”. “As classificações de surto, por vezes apenas com um caso positivo numa turma, levam a conclusões erradas”, lamenta. O responsável pede, ainda, que a decisão sobre um novo adiamento se faça com “uma forte fundamentação e não com as vontades da opinião pública”.

Sindicatos alertam para “exaustão “:

Mário Nogueira, dirigente da Fenprof, manifesta preocupação pelo “2.º período que aí vem”. “O 2.º período é o mais exigente para professores e alunos. No caso das escolas que funcionam por semestres, o mês de janeiro era o final do 1.º semestre e já vão perder uma semana. Do ponto de vista pedagógico há, por isso, algumas preocupações”, avança. Mário Nogueira afirma já não haver “tempos de pausa suficientes até junho”. “É verdade que nós estamos ainda a viver um tempo de pandemia. Se não houvesse pandemia, não faria sentido nenhum alterar o calendário escolar, mas é preciso cuidado para não fecharmos as escolas por dois meses. Admito que neste equilíbrio entre a saúde e a educação esta seja a solução possível”, confessa.

O dirigente diz-se “muito preocupado com o desgaste do corpo docente envelhecido” e a “instabilidade que se viveu no 1.º período com turmas em isolamento”.

“O próprio Plano de Recuperação não funcionou porque os alunos estiveram frequentemente em isolamento.

Depois, a falta de professores agrava ainda mais os problemas. Muitas escolas impuseram horas extraordinárias aos professores para suprir necessidades”, sublinha. Para Mário Nogueira, “é evidente que há um esforço grande dos docentes”, mas “entrando num 2.º período, mais exigente, poderemos assistir a um aumento de número de baixas” por parte dos “professores que não vão conseguir aguentar a exaustão”.

O coordenador do Sindicato de Todos os Professores (S.T.O.P), André Pestana, partilha a mesma preocupação. “Temos uma posição muito clara, os alunos e professores não são máquinas e já manifestámos o repúdio pela diminuição das interrupções letivas. Se houver novo prolongamento pelo verão dentro será uma medida errada. Mais uma vez, as aulas não são trabalho de fábrica que se pode compensar.

A classe docente é das mais envelhecidas da Europa e temos muitos professores à beira de burnout”, afirma. Para o responsável, as alterações no calendário escolar, “olhando para o exemplo do ano letivo passado”, não são “vantajosas”, pois “não representam melhorias nas aprendizagens e pioram a exaustão de alunos e professores”.

Há o risco de continuarmos a ter professores e alunos sem as ferramentas (computadores e internet de qualidade) e talvez por isso não se tenha decidido partir para e@d entre 3 e 7 de janeiro. O próprio Ministério da Educação tem consciência de que não fez o trabalho de casa. Se acontecer, mais uma vez, haverá uma situação de injustiça para os mais desfavorecidos”.

600 mil computadores “por entregar”:

Segundo Filinto Lima, presidente da ANDAEP, as escolas receberam a informação sobre o número de computadores que lhes seriam atribuídos, para alunos e professores, mas os equipamentos “ainda não foram entregues”.

“Não fomos informados sobre a data de entrega, mas não acredito que cheguem antes do dia 10 de janeiro por causa das férias de Natal e da semana de contenção.” Contudo, para o responsável, o atraso não deverá criar grandes constrangimentos porque a “maioria dos alunos já têm equipamento, porque os pais já compraram e têm rejeitado os computadores que lhes são atribuídos”.

dnot@dn.pt- © Rui Manuel Fonseca / Global Imagens- Cynthia Valente-28 Dezembro 2021