Depois de apps e plataformas, o desafio é refletir sobre o que mudou

As tecnologias estão para ficar na educação. Usá-las não basta. É preciso uma ideia do que é educar, ser aluno e ser professor, reflete Rui Trindade, presidente do Conselho Científico-Pedagógico de Formação Contínua. “Temos consciência disso. O grande desafio é como traduzir esta consciência para a prática.”

  • Os números do abandono, do insucesso, os resultados das avaliações internacionais aos desempenhos dos alunos portugueses mostram como a escola é bastante melhor do que era há 20 anos. Muito foi conseguido, mas para Rui Trindade, o desafio que temos pela frente é bem mais complicado. “Demonstrámos que somos capazes de manter os meninos na escola. Agora, temos de fazer com que a escola, de facto, seja um espaço de formação de inteligência e de humanidade.”

O EDUCARE.PT fez um Zoom com o presidente do Conselho Científico-Pedagógico de Formação Contínua (CCPFC), órgão tutelado pelo Ministério da Educação cuja responsabilidade é acreditar as entidades formadoras e as ações de formação contínua de professores.

A conversa com Rui Trindade, que é também professor da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, não poderia deixar de incluir dois temas que se interligaram no último ano: a pandemia e a tecnologia. Em 2018, 40% dos professores portugueses do 3.º ciclo inquiridos pelo TALIS (Teaching and Learning International Survey) considerava dominar as tecnologias o suficiente para ensinar.

Depois do ensino a distância, das aprendizagens não formais e do investimento feito na formação, Rui Trindade acredita que a percentagem seja superior. A pandemia acelerou mudanças. “Mas não atingem o problema que temos de resolver que é a transformação da escola num espaço de cultura e de desenvolvimento de literacias”, aponta.

“As novas tecnologias podem ter um papel fundamental desde o momento em que haja uma transformação de caráter curricular e pedagógica que não garantido só porque se usam as novas tecnologias.” O problema, contrapõe, é pensar apenas no lado técnico da questão. “Não há Zoom, nem Teams, nem apps que por si só transformem a relação dos alunos com o saber”, reflete. “Até porque é possível dar uma aula expositiva no Zoom, como se daria de forma presencial, em que a passividade intelectual dos alunos continua a ser a imagem de marca.”

Rui Trindade não tem dúvidas de que “quando a vida retomar a normalidade, as novas tecnologias vão ficar nas escolas”. Por isso insiste na reflexão sobre o seu impacto na prática docente. “As tecnologias potenciam a nossa capacidade de comunicação de interação, mas é preciso ter por detrás uma ideia do que é educar, do que é ser aluno e do que é ser professor. Temos consciência disso, o grande desafio é como traduzir esta consciência para a prática letiva.”

No pós-pandemia, “deixamos de precisar do Zoom porque temos aulas presenciais, mas podemos fazer coisas maravilhosas com ele”. Por outro lado, acrescenta, “os professores são chamados a deixar de fazer depender a sua relação com as tecnologias do acaso, ela passa a estar sujeita a uma certa intencionalidade curricular e pedagógica.”

Quando se trata de ações de formação na área das tecnologias, o presidente do CCPFC diz que “ainda há uma certa ingenuidade” entre os formadores. Exemplo: há quem pense que uma ação de formação para um professor de matemática pode ser igual à do professor de português.

“Mas uma ação de formação não é só para trabalhar em plataformas. E para perceber como a educação a distância tem implicações do ponto de vista curricular. As implicações curriculares em matemática não são as mesmas que em português, os modos de avaliação não são os mesmos e a forma como as competências se propõem também não são as mesmas.”

Quem deveria fazer esta reflexão? Além das escolas, do Ministério da Educação e das instituições de Ensino Superior, Rui Trindade gostaria de ver as organizações sindicais envolvidas. “O conhecimento profissional dos professores é também uma questão sindical. Em última análise, o prestígio da profissão, a valorização da profissão, passa pelo reconhecer que o conhecimento profissional dos professores é um conhecimento específico e complexo e que vê – através das novas tecnologias, da educação a distância – essa complexidade e essa especificidade a adquirir novos contornos.”

Formação e carreira

A formação contínua está ligada diretamente à progressão na carreira docente. Apesar de admitir ser esta a “realidade atual” e que os professores possam procurar formação por causa da progressão na carreira, Rui Trindade diz-se contra esta utilização.

Em alternativa, defende que “a formação contínua deveria ser algo a ser objeto de avaliação de desempenho, ter consequências na progressão na carreira mas não diretas.” Considera, no entanto, que “este é um processo complexo que terá de ser feito um dia destes sendo que este não é o melhor momento”. “Mas temos de voltar a discutir a carreira docente, por muitas razões, pelo envelhecimento e por tudo isto que vai trazer.”

Rui Trindade considera que este facto – que na sua opinião “é um incómodo” – “não tem que ser entendido como um obstáculo que impede a formação de ter sentido”. Olhando para o sistema de formação contínua, o presidente do Conselho Científico Pedagógico de Formação Contínua garante que há um património – das ações propriamente ditas e organizacional – que deve deixar o país orgulhoso do trabalho realizado pelos 91 Centro de Formação de Associação das Escolas (CFAE).

O regime jurídico da formação contínua foi aprovado em 1998 e mantém-se até agora, lembra Rui Trindade. “Tem funcionado, muitas vezes contra as maiores maldades. Nos anos em que não havia financiamento, os CFAE reinventaram-se, trabalham muito entre si. O que não significa que não haja um caminho por fazer.”

Como melhorar a organização e fazer com que seja mais fácil conciliar a oferta da formação contínua com a vida pessoal e familiar dos professores. “Em termos institucionais, muitas vezes, a formação não é suficientemente enquadrada porque uma parte do horário não letivo dos professores poderia ser para a formação.”

Há questões de logística que causam entraves, sobretudo quando as ações de formação envolvem vários agrupamentos, explica Rui Trindade. A dificuldade em conciliar a vida pessoal com a formação é sentida também por professores e educadores quando procuram fazer mestrados. “É uma coisa praticamente impossível. Mas seria preciso saber porque é que as instituições de ensino superior não se organizam para lidar com estas situações.”

Outra coisa preocupa mais Rui Trindade, “as horas que as escolas dão ou não dão para os professores trabalharem e planearem em conjunto”. A questão da formação, assegura, enquadra-se nesta dimensão. Depois, adianta, há professores que não fazem formação porque estão felizes com aquilo que fazem. “O problema é que a felicidade de cada um relativamente aquilo que faz não é critério.”

“Posso estar feliz com aquilo que faço se mostrar que os alunos aprenderam e que beneficiaram com o meu trabalho. Quando isto não acontece tenho de discutir isto, não apenas em função dos meninos, mas em função de mim próprio. E algumas vezes isto pode implicar ter de repensar até que ponto não tenho de mudar de práticas.”     Andreia Lobo   10-05-2021